Aconteceu que a fama daquele pão milagroso se espalhou pela região, que coincidentemente ou não, recebeu naqueles dias a visita do arcebispo do condado, que se instalou no casarão mais vetusto e digno da aldeia, do qual fez sua casa episcopal.
Ouvindo falar da única novidade daquela aldeia, imediatamente mandou chamar aquela família e interrogou-a um tanto rispidamente sobre aquele pão que o povo já chamava de milagroso. Exigiu que a família lhe trouxesse um exemplar para prová-lo segundo as regras da Igreja. A menina se esmerou, como sempre, e o arcebispo ao prová-lo ficou subitamente deslumbrado, mas logo se controlou, fechou o cenho e disse ameaçadoramente:
- O que é isso? Este pão tem um sabor celestial, nos remete ao paraíso, e isso é blasfêmia! Por acaso és uma santa ou um anjo? Apesar de teu nome, certamente que não! O paraíso nos foi interditado por Deus. É um imenso pecado trazer-nos, deste modo comezinho, a ilusão pecaminosa da felicidade terrena.
És uma bruxa, rapariga, e vais pagar por tal blasfêmia perante nosso Senhor Jesus Cristo e sua Santa Igreja representada aqui por mim! Mas antes vais confessar o ingrediente mágico ou o sortilégio que agregaste a este maldito pão. Vais repetir aqui na minha cozinha a tua falsa fórmula e se não conseguires o mesmo sabor saberei que excluíste marotamente o ingrediente mágico!
Angelina, assustada, se esmerou na cozinha do bispo e com os poucos ingredientes pedidos por ela, conseguindo o mesmo resultado maravilhoso.
Foi a conta... O bispo, furioso em seguida ao momento de prazer que ele prontamente exorcizou de si, gritou:
-És uma bruxa! Confessa o ingrediente proibido ou o feitiço que disfarçadamente puseste na massa. Qual é ele, confessa!
Angelina assustadíssima, em lágrimas, respondeu:
-Mas, Sua Santidade, é amor...
-Amor de Deus? - insistiu o arcebispo- Certamente que não. Acaso és um anjo? Os anjos se retiraram da Terra há muito tempo. Amor das trevas, isso sim! Não temos direito à felicidade terrena. Ninguém tem!
- Amor somente, Senhor... Simplesmente amor – gemeu a menina.
O arcebispo, mais furioso ainda, mandou que a torturassem para ela confessar o ingrediente secreto. Sem obter resultado, pois a menina, sob terríveis torturas afirmava que nada tinha escondido, nada tinha a esconder.
Então, na pequena praça daquela aldeia, sob os insultos dos aldeões e as lágrimas de alguns, também, Angela sofreu o martírio das chamas.
Diz a lenda, que no meio das cinzas restou não o coração intacto da donzela doceira, mas um pãozinho perfeito, quentinho e doce, que desde então se encontra, meio comido, como única relíquia venerada pelo povo, num escrínio na capela da aldeia...
FIM
28/04/2020