domingo, 28 de outubro de 2007

LENDAS DA ALMA ( de Alma Welt)


Capa de Lendas da Alma - desenho de Guilherme de Faria, de 74X74cm, a nanquin e aquarela, coleção da escritora e poetisa Elisa Nazarian, São Roque, SP

LENDAS DA ALMA (de Alma Welt)

Pequena lenda

1
Diz uma lenda
verdadeira
que inventei
que um rei não encontrava o seu destino
Ser rei era pouco para ele
já que era origem e não a meta.

Andou e andou
( os reis sempre andam muito
nos seus vastos salões )
Mas este percorreu
a parte menos feia do seu reino
pois afinal, não era
rei de ferro
e sofria muito com o desconforto
apesar da existencial inquietação...

Ora, direis,
onde queres chegar, ó Alma?

Eu vos direi:
paciência, o rei
apenas partiu
com sua grande comitiva
e tudo pode acontecer
até mesmo
inesperada guerra
por deslize de fronteira
ou mesmo amor
à primeira vista
da mulher do rei vizinho,
ou ainda
uma simples e fatal diarréia
como ocorreu
com o grande Byron
Lord dos poetas

A verdade, é que o monarca
em questão
envelheceu em sua procura
de uma vida
e nada encontrou
que se parecesse
com a idéia
que tinha de destino


Bem, direis vós,
está na hora
do estafermo morrer, pois não?

Ah! Quão inesperados
são os desígnios da fortuna...
na hora extrema
encontrou o amor de sua vida
à primeira e última vista
numa certa carpideira
contratada
que chegou um pouco cedo
e não como esperáveis
atrasada.


Pronto, podeis ir embora:
o rei deu um suspiro, sorriu
e morreu
sem mais delongas.
Acaso achareis melhor desfecho
ouvintes, leitores,
que uma boa morte,
associada ao humano destino?


FIM

Postado por Lucia Welt às 15:58 0 comentários Links para esta postagem




Outra lenda da Alma
2
Num reino de além-mar
todo em volta de um penhasco
encimado pelo castelo
sombrio
vivia um outro rei
mais triste que o primeiro.

A esposa lhe morrera
de parto
e levara consigo o único herdeiro
nonato
nem sequer batizado
Imenso luto pesava sobre o reino
não permitindo a felicidade
nem mesmo
ao mais ínfimo
vassalo

O rei chorou a sua última lágrima
e encontrou-se cercado
do grande ressentimento
de um reino infeliz.

Cabeças rolariam
de um jeito ou de outro
não fosse a intervenção
providencial
do mago
que deixou o seu laboratório
nos porões
com uma fórmula
milagrosa:
a poção mágica
do Humor,
que tinha somente
a contra-indicação
do senso de igualdade
( incômodo para o rei )
que abalaria seu imenso poder

Que pensais, leitores
que escolheu
esse trágico monarca?

Infelizmente perdeu-se
o final dessa lenda
e não saberemos ao certo,
podendo somente presumir

já que
conforme entendo
a lição do velho Lear
o poder se ganha
ou se conquista pela força
e por ela se perde
mas ai do reino
e do rei
que renunciou
ao seu poder...

FIM


Ainda uma lenda
3
Um sábio de outrora
vivia
em reclusão
como cabe a todo sábio
que se preze
evitando acotovelamentos
com a Massa.

Sua sabedoria portanto
não servia para ninguém
senão para ele mesmo
imerso em estudos
e contemplação
que acabava sempre
no seu próprio umbigo

Mas eis que
numa tarde de outono
passeando pelo dourado bosque
que circundava o
castelo do seu rei
viu por uma única vez
a bela camponesa
que abalou sua solidão
para sempre



Sabemos disso tudo
por seu diário poético
cheio de belos
e dolorosos
versos de amor
vazados de sua sabedoria
que chegou até nós.


FIM

Cornwall(...armou-se da cabeça aos pés)- Desenho de gulherme de Faria de 100X74cm s/ papel Shöeller, coleção particular, São Paulo



Cornwall

4
um rei da Cornualha
outrora
armou-se
da cabeça aos pés
p’ra combater
um rival
que ameaçava o destino
do seu reino
por cobiçar a sua filha
tanto quanto a decantada
riqueza
de Cornwall.

Na imensa charneca
que separava os dois castelos
esses exércitos
se encontraram
num memorável dia de primavera
para tingir
as urzes
de vermelho.

A batalha foi tremenda
mas os reis
pessoalmente não se encontraram
propriamente
no combate
à frente
dos seus exércitos
pois, na verdade
estavam
longe dali

Na frente corria o casal
fujão
o rei vizinho e a princesa
filha de Cornwall
e atrás furioso
o rei roubado


Os três mais tarde
foram encontrados
atravessados pelas duas espadas.

Após a sangrenta
batalha de cem mil mortos
a Cornualha começou
a sua decadência.

FIM


A princesa poeta
5
Num antigo reino
uma princesa
revelara bem cedo
uma notável
veia poética
coisa inconcebível
pois os nobres do seu tempo
acreditavam
que ser mulher e princesa
era poesia suficiente
e o fazer poético
coisa da estirpe
mais baixa
dos artistas
embora
alguns reis outrora
tivessem cometido
os seus versos
por diletantismo ou diversão
ou mesmo
levando a coisa a sério
como o enobarbo
Nerone


Seu pai, o rei, tentou
em vão
dissuadi-la
de compor versos
mas isso revelou-se
impossível
pois
secretamente
a princesa continuou
a escrever
maravilhosos poemas
a julgar
por alguns poucos
que chegaram até nós
estranhamente manchados
de sangue
que se presume
dela mesma.

Louvadas sejam as Musas
os poetas
afinal
sempre escreveram
de um jeito ou de outro
com seu próprio
sangue.
FIM


 

sábado, 27 de outubro de 2007


O Fautista- desenho de Guilherme de Faria , de 74X74cm, Nanquin e aquarela s/ papel Shöeller.


Brindhall

6
No reino de Brindhall
a alegria
até então natural
foi subitamente banida
por um usurpador
O riso estampado
no rosto
de seus habitantes
a custo
esvaneceu-se
ou desarmou-se

Pode ter sido
coincidência
mas uma sombra
real
pairou sobre o reino
outrora radioso
e o teto do céu
tornou-se
baixo e
acinzentado


Assim passou-se
uma geração
melancólica
se não
francamente
infeliz

Mas
como prevíeis
ali chegou afinal
um jovem flautista
nem sequer parente
daquele
de Hammelin
e pôs-se
a trinar
logo de saída
uma ária alegre

Assim ele a repetiu
por três vezes
inteira
e logo partiu
sem nem um sinal
de decepção
embora com a bolsa
vazia

Foram necessários
três meses
para a melodia
alegre
insidiosa
começar
a dar fruto

Brindhall
hoje
recebe em sua feira
famosa na região
todos os anos
os flautistas
de todos os reinos
alguns de além-mar

para um célebre torneio
de uma mesma melodia
que pode ser interpretada
mas jamais
distorcida

O jovem flautista
mesmo
nunca foi identificado
e aparentemente
não esteve
sequer incógnito
nos torneios de Brindhall
pois seu toque
não foi igualado
jamais

Brindemos pois
à Música
que planta sementes
de alegria.

FIM


Uma lenda toscana

7
Na bela Toscana
em tempos idos
um rude camponês
afastou-se das parreiras
e aventurou-se
a entrar no bosque
proibido
do grão-duque

Diz o povo que ali
algo aconteceu
que o transfigurou
tornando-o belo
e delicado
como os próprios
filhos
do grão-duque

Isso, infelizmente
o denunciou
e os guarda-caça
vieram logo
buscá-lo
e o levaram
para o castelo

O jovem não mais
voltou
ao convívio dos seus
e seu paradeiro
ignorado
pois não foram toleradas
perguntas

O povo da Toscana
garante
que assim foi construída
desde tempos imemoriais
a bela estirpe
dos duques
da Toscana
isto é
por intermédio
do toque
das fadas

FIM


Labirintos

8
A contessina
Almavera
costumava brincar
no pátio do castelo
num austero jardim
geométrico
cujo único mistério
era a sebe
em labirinto

A contessina
temia ali entrar
e não mais ser
achada
permanecendo perdida
para sempre
Então pediu
ao seu pai
que destruísse a sebe
e ali plantasse
um pequeno bosque
no que foi


atendida
pelo prestimoso conde
que não lhe negava
nenhum mimo

Almavera cresceu
junto com o bosque
de preciosos pinheiros e faias
para onde logo vieram
o tordo
o rouxinol
e a cotovia

A contessina
nos seus quinze anos
uma manhã
entrou no bosque
como fazia todos os dias
e nunca mais
foi vista


O mordomo
antigo camponês
estranhamente ilustrado
garante
que a sebe-labirinto
não podia
ser destruída
por nada neste mundo
como não o foi
completamente
nem mesmo
Cnossos
o palácio-labirinto
de Creta.

FIM


Trigal de sangue

9
A grã-duquesa Amália
nos seus dezessete
estava pronta para casar-se
embora um tanto
retardatária

Percebeu-se
que de alguma forma
ela adiava
ou rejeitava
até mesmo
amáveis pretendentes

Até que uma tarde
ó tarde aziaga!
chegou a notícia
da morte de seu irmão
em duelo ou escaramuça
(não ficou claro)
e o seu corpo vinha
pelo trigal
para ser velado
entre quatro montantes
com os punhos transformados
em tocheiros
e acesos
fincados nas grossas
tábuas do salão
claro sinal
de guerra iminente

A duquessina Amália
chorou e gritou
pelo seu irmão
e mais do isso
arrancou um montante
sem apagar a tocha
e o carregou
maior do que ela
num estranho esforço
admirável
até o trigal
que viu passar o corpo
de seu irmão
com a coma loura
confundida com as espigas

Ali fincou a imensa espada
acesa
e não tardou o trigal
inteiro incendiar-se
provocando em seguida
a fome que
precipitou a guerra
vingadora

A duquessina Amália
diz o povo
jamais saiu daquele trigal
em chamas loiras
e vermelhas
como os cabelos ensangüentados
do seu malfadado
irmão.

FIM


MacFinn

10
O jovem Lorenz
filho do barão
do mesmo nome
do ilustre
mas não ilustrado
clã dos MacFinn
agora extinto
desceu das terras altas
nos seus vinte anos
incompletos
para buscar um mestre
que o satisfizesse
já que a ignorância
pedira asilo
no castelo de seu pai
e nunca mais
fora desalojada

O jovem, sagaz
intuía
que o mestre ideal
viria
ao seu encontro
desde que ele
se deslocasse
da montanha
inacessível
da ignorância
e soberba
do seu clã

Logo na primeira aldeia
por qual passou,
sentado no grande banco
da estalagem
cuja mesa já se enchia
das grandes canecas
do novo destilado
que surgira
tudo se encaminhava
para grande orgia
etílica
quando entrou subitamente
um forasteiro
de grisalha barba
e olhar agudo

Sentou-se em frente
ao jovem barão
e o convidou
a permanecer abstêmio
como um desafio
sem no entanto
colocar sequer
um dobrão
sobre a mesa

O jovem Lorenz
imediatamente
reconheceu o seu Mestre
e levantando-se
partiu com ele
para não mais voltar

O jovem desapareceu
nunca mais foi visto

Todavia não precisamos
nos preocupar
Tudo leva a crer
que estava
em boas mãos.
FIM

27/12/2003


O poeta

11
O jovem poeta Luchino
andou muito tempo
em solidão
até encontrar
um castelo
para si desconhecido
e vagamente
ameaçador
em plena campagna emiliana

Outro menos audaz
não ousaria
sacudir a aldrava
do grande portão escuro
que não denunciava
qualquer espírito
hospitaleiro

Todavia o poeta
foi introduzido
e o portão fechou-se
atrás dele
deixando a nós, leitores
do lado de fora
e temerosos
por ele

Semanas se passaram
e o portão
abriu-se afinal
para deixar sair
um cortesão a cavalo,
extremamente enfeitado
e com fitas pendendo
do belo alaúde
que carregava
na anca do corcel

Permanecemos vigiando
o portão
mas não logramos
avistar
nunca mais
o nosso bom Luchino

O que nos deixa
preocupados.

FIM

27/12/2003


O Armeiro

12
Numa aldeia
da Bavária
vivia um mestre ferreiro
que passara a vida
forjando espadas
e couraças

As armas que fazia
tinham a sua marca
de beleza inconfundível
e ele se esmerava
ainda
em decorá-las com
belos desenhos gravados
à água-forte

Um dia veio até ele
um escudeiro zeloso
trazendo-lhe uma
espada de belíssimo porte
e excepcional têmpera
cujo fio
era um abismo perigoso
ao menor toque

Entretanto
o maravilhoso instrumento
não ostentava
nenhuma decoração
como se a mais leve gravação
fosse supérflua
diante do seu poder
mortífero

O mestre sopesou-a
empunhou-a
respeitosamente
olhando-a à contra-luz
no crepúsculo
que a banhava
de suave luz
prateada

Então devolveu-a
ao escudeiro
recusando-se
a decorá-la
com o menor
dos mais belos desenhos
pois
(disse ele)
a Morte fala
por si própria
e o seu desenho
não nos cabe
reconhecer
sob pena de
nele projetarmo-nos
atraindo a vingança
dos mortos.

FIM 27/12/2003

sexta-feira, 26 de outubro de 2007


O Gramático- desenho de Guilherme de Faria, aqurela e nanquin, sobre papel Shöeller montado, de 100X74cm, coleção particular, São Paulo



O Gramático

13
Panfílio
mestre da gramática
passou a vida
a equacionar
orações
codificando-as
e decodificando-as
como um jogo de armar
apontando erros
com uma fúria
sagrada
muito admirada
pelos leigos

Quando morreu
procuraram seus escritos
possíveis ensaios
talvez versos
contos
um romance
Nada
Panfílio morrera estéril
e não deixara
descendência
Uma quadra sequer
que fosse sua
e de concordância perfeita
como se esperava

Seus esquemas
sobre textos alheios
diagramados
em vermelho
produziam estranha
aversão
e foram para o fogo

A única página
que sobrou
acidentalmente
um século mais tarde
caiu nas mãos
de um poeta erudito
que
espantado
decifrou-lhe o código
que produzia
o mais perfeito
poema
que o mundo já vira

Enciumado
o poeta suplantou
o erudito
e publicou o poema
como seu
queimando
o estranho
criptograma
original

Assim
não pudemos identificá-lo
e tudo se perdeu
de um jeito
ou de outro

Louvadas sejam mais uma vez
as Musas
pois que nada somos
sem o seu sopro
inspirador!...

FIM

27/12/2003

O Frade
14
Frei Lucca
monge franciscano
numa aldeia calabresa
adquiriu em pouco tempo
odores
de santidade
graças a uma
estranha bondade
perfeitamente isenta
que ele impedia
de acompanhar
com qualquer ação
ou mesmo
simples gesto

Nunca se lhe viu
repartir um pão
ou levantar um caído
mas ele estava
sempre por perto
com o mais doce sorriso
que um rosto pode
estampar

E assim
de algum modo
as pessoas se sentiam
contempladas
e ele era
venerado

Um dia
um leproso
com a sineta
chegou
à aldeia
que encontrou deserta
e com as janelas
fechadas

Frei Lucca
veio recebê-lo
à porta do mosteiro
e sorriu-lhe
naturalmente
sem o tocar

Dizem os aldeões
( que nada viram)
que o doente
caiu aos pés do frade
em prantos
risos
e aleluias
entrando em seguida
já curado
para ser também
um monge como Lucca

Agora passados
muitos anos
comenta-se na aldeia
que isso explica tudo
pois que Lucca
certamente fora também
um leproso agraciado
com um sorriso perfeito
de outro monge
e curado
continuara evitando
tocar seu semelhante
ou mesmo
repartir o pão

Pelo sim
pelo não
repartamos o pão
sorrindo!...

FIM

27/12/2003

O Mago

15
Um mago outrora
dedicou a sua vida
à procura
da forma mística
perfeita
que pudesse ser
encontrada pronta
na natureza

Somente o círculo
era visível com facilidade
no maravilhoso poente
enquanto o quadrado
só encontrara
na base das pirâmides
de cristal
do sal nas manjedouras
O retângulo
e o triângulo
encontrou também
nos cristais

Mas o propósito
de sua busca
foi malbaratado
pelo povo
que temia
um suposto poder
desestabilizante
da ordem
injusta
a que estavam
acostumados

Invadiram pois
o laboratório do mago
queimando seus diagramas
suas mandalas
e os modelos
geométricos perfeitos
e expulsaram
o velho sábio
sem um compêndio sequer
que nada lhe sobrou

O velho, entretanto
caminhando
para as portas
da cidade
sorria
olhando suas próprias mãos.


FIM


27/12/2003


A donzela campônia

16
Numa choupana
de colmo
próxima a um bosque
de pinheiros, faias
bétulas
e carvalhos
que filtravam suavemente
a luz
pondo o solo coberto de cogumelos
e líquens prateados
morava uma família
camponesa
Na verdade
uma viúva
e seu casal de filhos

O rapaz
aos quinze
partiu
como se devia
à aventura
no mar, longe dali
certamente como
grumete

Mas a jovem
de quatorze primaveras
poupada dos trabalhos
por ser bela demais
era a jóia
da viúva
e o encanto
das redondezas

Tinha tudo
naturalmente
para ser cobiçada
por um mago
ou bruxo
invejada por
princesas e rainhas
e encantada
por má fada

Mas o que se sabe
é que Laurinda
(esse o nome da donzela)
penetrou no bosque
um dia
como fazia sempre
para colher fungos
silvestres
e voltou com
as lindas pernas
e os pezinhos
cobertos de sangue

Na sua inocência
acreditando-se
invadida por
um duende
malígno
resolveu desalojá-lo
e enforcou-se
no sótão
da choupana

Os camponeses da região
a princípio consternados
perpetuaram
a memória
de Laurinda, a donzela
violentada
pelo rei dos gnomos
e o bosque
interditado
fechou-se
na sua maldição
tornando-se
realmente
sinistro

Posteriores donzelas
que o penetraram
desavisadamente
nele foram violadas
e seu sangue
salpicou os cogumelos
vermelhos
que jamais
devemos colher.

FIM

28/12/2003


O Monge
17
Num mosteiro dos Alpes
havia
um jovem monge
tonsurado
que apesar da
pobreza e austeridade
do seu burel
e das sandálias
chamava a atenção
por sua beleza
física
e por seu porte

A caridade e
a comunhão
eram o forte
do mosteiro
mas os monges
eram chamados
para conselhos
além das preces, sermões
confissões, bençãos
e sacramentos

Estando uma jovem
definhando no leito
a família mandou
chamar um monge
qualquer
do mosteiro
de preferência velho e sábio

Desavisadamente
ó destino, ó ironia!
foi-lhe enviado dali
o jovem e belo monge
por seu zelo
e retidão

Depois de abençoar
a família
o monge aproximou-se
do leito
e contemplou
por um momento
comovidamente
o rosto pálido da jovem
moribunda
e diante da estupefação
dos presentes
curvou-se sobre
o seu rosto
e beijou-lhe
os belos lábios
descorados

Esta abriu os olhos
que logo se iluminaram
encontrando os do
jovem frade
e um sorriso beatífico
devolveu-lhe a cor
às faces lívidas
e aos lábios

O jovem frade
segurou a mão
que a jovem lhe estendia
e ajoelhado ao seu lado
a levou ao coração

Percebia-se estar
diante de um ato
de adoração
mútua
e os presentes
desconcertados
agitavam-se
numa mistura
de surpresa
e indignação

Estes dois já se amavam
de algum modo,
os belos jovens

O fato é que
a moça milagrosamente
reviveu
recuperou as cores
naquele momento
sublime
e constrangedor

O pai e os irmãos
da jovem
afastaram a braços
desse leito
de maneira
um tanto imperiosa
o monge
para que partisse
cumprida a sua missão

Diz-se até hoje
que o belo monge foi
transferido
do mosteiro
ou que a família
mudou de aldeia

Outros ainda
dizem
que a moça
em seguida ao beijo
suspirou e morreu
com um sorriso
nos lábios
encarnados
O que acho
mais provável

Louvado seja o amor
que,
se não ressuscita os mortos,
apazigua os moribundos!...


FIM
28/12/2003






Queen Mab- desenho de Guilherme de Faria para para a lenda Deirdre, das Lendas da Alma, de Alma Welt.
Queen Mab- Desenho de 100X74cm, de Guilherme de Faria, coleção particular, São paulo

Deirdre
18
Ó forças elementais!
Ó florestas, águas
e as belas chamas
que nascendo no céu
descem ao solo
para alegria das salamandras!

Neste cenário perfeito
de vales e montanhas
corria a jovem
predestinada
Deirdre, filha
da Irlanda
ancestral

Longos cabelos ruivos
emoldurando
o branco rosto
iluminado pelo azul
de seus olhos risonhos
e lábios
mais encarnados
que os cabelos

Certamente fadada
ao encontro das fadas
ocorreu esse encontro
nos seus treze anos
embora digam alguns
que já fora velada
por elas
em seu berço
e que os duendes
e gnomos
a iniciaram
nos mistérios
do jardim paterno
antes ainda
de aventurar-se
um pouco mais longe
naquele bosque
encantado

A doce filha
do país das fadas
caminhava
no bosque
uma manhã
quando viu
pela primeira vez
o cortejo real
de Queen Mab
com seu coche
que era
realmente
uma casca de noz

Tal como fora advertida
por sua velha ama
seu coração tornou-se
vulnerável
e pronto a apaixonar-se
pelo primeiro donzel
que avistasse

Ó destino, ó ironia!
esse foi
o jovem filho
do guarda-caça
certamente
mais plebeu
que seu cão
que não tinha
propriamente
linhagem
para justamente
guardar, guardar

Frolo, o jovem
puro como Deirdre
paralisado
pela proximidade
de sua patroinha
tornou-se também
um sonhador

Assim ambos sonhavam
cada qual
por seu lado
e isso foi evocado
mais tarde
após a fuga
que mobilizou
todos os varões
da região
e agitou as mulheres

O jovem par
fugitivo
não foi encontrado jamais
coisa imponderável
na charneca
devassada

Houve porém o testemunho
da menina camponesa
que jurou tê-los visto
caminharem no bosque
e desaparecerem

Os camponeses evitam
falar das fadas
que por certo temem
mas a pequena campônia
muitos anos depois
confidenciou
ao seu próprio noivo
camponês
no dia de suas alegres bodas
ter visto
Queen Mab
carregar o jovem par
na sua carruagem de noz
chicoteando
os minúsculos corcéis que
partiram voando
em disparada

Não podemos
pois
confiar nas fadas
que apoiam
indiscriminadamente
o amor
sem maior consideração
pelos costumes
dos homens.

FIM

30/12/2003


Fingal's Cave
19
Conta-se
que
o jovem Mendelssohn
viajando pela Escócia
e ouvindo falar
da gruta de Fingal
preferiu
o litoral das Hébridas
às Terras Altas
e para lá
dirigiu-se
sem demora

Pagou um barqueiro
que remando
conduziu o bote
até próximo
à entrada perigosa
da célebre gruta
batida pelas ondas
onde outrora
o bardo guerreiro
futuro pai
de Ossian
se escondeu

Conta-se que
o barqueiro
nada ouviu
mas Mendelssohn
pôde distinguir
nota por nota
de seu maravilhoso
poema sinfônico
que lhe veio
inteiro e pronto
executado
pelos ventos
e ondas
açoitando
as rochas
como os arcos
dos violinos
violoncelos
e o sopro
das madeiras
e metais

Nada faltou
e o jovem maestro
regeu a música
ali mesmo
de pé na proa
do bote
em perigoso equilíbrio
para espanto
e fascinação
do barqueiro

Após
esse maravilhoso
concerto
inaugural
tudo o mais
na ilustre carreira
dessa
obra-prima orquestral
foram récitas
jamais igualando
a estréia
verdadeira

Reverenciemos pois
a música
que existe
no ar
e no mar
a despeito
do nosso próprio
rumor
e silêncio!

FIM

30/12/2003

Gilmore (uma lenda do Graal)

20
Entre os muitos
cavaleiros
consagrados à procura
do Santo Graal
nos dois séculos
que se seguiram
à morte
de Arthur
conta-se
que sir Gilmore de Galloway
foi o mais dedicado
e o que
chegou mais perto

Percorrendo
a grande ilha
a partir
da ruína
do que outrora fora
Camelot
cuja Távola
ainda se avistava
meio enterrada
como uma nave
que lentamente aderna
e afunda
Gilmore
chegou a Cornwall
no auge de seu poder
mas pouco antes
da grande peste
que se seguiu
à batalha dos cem mil mortos
da qual não sabemos
se participou

Na verdade
seu encontro
com o Graal
ocorreu num mosteiro
onde chegou
ferido de morte
amarrado ao seu cavalo
pelo seu escudeiro
cujo nome
a lenda não registra

Consta que
o superior
do monastério
presidiu um conselho
de todos os monges
para decidirem
se usariam a taça sagrada
de seu
mosteiro
para dar de beber
ao ferido

Após acalorado
debate
incomum
à concordância
obediente
habitual àqueles monges
o superior
solenemente
retirou a taça
do sacrário
secreto
do qual ninguém
falava

apesar dos boatos
eventuais
que acabaram
se tornando
nesta lenda

Diz-se que Gilmore
tendo bebido da
taça sagrada
salvou-se do ferimento
mortal
que cicatrizou prontamente
e levantando-se
do leito
ajoelhou-se
pedindo
para olhar
uma última vez
para o Graal

O monge superior
então
sorrindo
entregou-lhe
a Taça e
disse-lhe que
a levasse consigo
pois a sua
natureza e
função
tinham sido cumpridas
e portanto
agora era
um receptáculo
como qualquer outro

Surpreso e consternado
ao mesmo tempo
Gilmore montou
no seu cavalo
com a taça
em seu alforje
e prestes a atravessar
o grande portão
do pátio
para retornar ao mundo
ouviu a voz
do monge
às suas costas:

“ Se quizeres, cavaleiro
reencontrar o Graal
dê de beber
a um moribundo
nessa taça
quando o encontrares
mesmo que esse
não seja fervoroso
como tu
e cheio de medo
blasfeme
na hora de sua morte”

“Reencontrarás
eu te asseguro
o Graal
que tanto procuras.”


FIM

30/12/2003


O Livro

21
No século das luzes
corria a lenda
de que o livro
matriz
de todos os livros
tinha sido descoberto
e
pasmem
não era a Bíblia
mas
um compêndio
obscuro
e avolumado
escrito
em estranhos
criptogramas
cor de sangue velho

Era voz corrente
nos círculos
próximos
à biblioteca
do mosteiro
que o abrigava
que a combinação
aleatória (como quem
embaralha cartas)
dos sinais
produzia
estórias sem fim
e ainda desvendando
e seguindo uma
certa chave criptográfica
desenhada no frontispício
da obra
teríamos a História
verdadeira
da humanidade
que
na verdade
não poderíamos ler
impunemente
pois sua revelação
de tão surpreendente
era mortal

O monge erudito
que o descobriu
ocupara-se do livro
por dezessete
longos anos
antes de descobrir
essa chave
então realmente adoeceu
de maneira fatal
e moribundo
cercado dos irmãos
do monastério
pode ainda
alertá-los:

“Misturem, eu vos peço
o livro aos outros
na nossa biblioteca
como uma carta
comum
no baralho
para que ele
perdendo-se
sobreviva
pois o século
que virá
fará mal uso dele
se descoberto
mas não o futuro longínquo

“O próprio livro
em sua História
mo revelou
em seu capítulo
mais sinistro”

“Levarei o segredo comigo
para o túmulo
mas advirto-os
que o perigo
não se encontra
na revelação
da nossa verdadeira
história passada
embora espantosa
mas sim
na história futura
da humanidade
que nele está
e que
se lida
condensará a sua
tragédia
num único dia
de Holocausto
total
pois ali se encontra
a fórmula
de nossa destruição
e de toda a
nossa galáxia

“ Não pedirei
que queimem o livro
pois sei que
se o fizer
ele desaparecerá
da biblioteca
e não teremos
a certeza de sua
destruição

“ Se
ao contrário
suas folhas forem
dispersadas
entre os cem mil
volumes
sei que só será
descoberto e recompilado
no futuro
por um homem
igual a mim
e teremos segurança
pois tal aplicação
e persistência
implica
em intenções
superiores.”

E tendo assim falado
o moribundo calou-se
e pode refluir para
o sono a que
tinha direito
antes de mergulhar
naquele outro
mais profundo
do qual
ninguém jamais
voltou
exceto Lázaro
e talvez
Er, o Armênio.

FIM

31/12/2003


Walhalla (ou A catequese de Benedictus)

22
Na ilha de Teifland
que permanece desconhecida
no mar Báltico
uma nau
aportou
trazendo um monge missionário
para catequizar
os últimos vikings germânicos
que isolados
ali viviam
adorando Thor, Odin
e as Valquírias

Disseram os marinheiros
que o monge
fora escolhido
pela sua bravura
e desassombro
pois os vikings
costumavam testar
a coragem dos forasteiros
num estranho jogo
de machados
no qual
preliminarmente
sacrificavam um dos seus
para infundir
pavor aos estrangeiros

Benedictus
o monge
não se impressionou
com a exibição de carnificina
e mostrou-se tão hábil
no jogo dos machados
de Odin
como se ali tivesse nascido

Os guerreiros loiros
então o reverenciaram
e mostraram-se
dispostos a ouvi-lo

Conta-se que
o hábil Benedictus
narrou a história de Cristo
o mais bravo filho de Odin
que não temeu a morte
nas mãos dos inimigos
e crucificado
invocou os raios e trovões de Thor
e a cavalgada
das Valquírias
que aterrorizaram os
romanos e fariseus.

Por fim, ao retirar-se
para o navio
deixara plantado
um novo deus
que segundo ele
daria frutos
e suplantaria
naturalmente
os outros deuses
do Walhalla

Os marinheiros
confusos e incrédulos
abanavam timidamente
as cabeças

Quem ousaria
contestar
a catequese
do Mestre ?

FIM

31/12/2003


Glendal

23
À beira do lago Glendal
crescem os choupos
e lariços
que retorcidos
dão um aspecto
lúgubre
ao lugar
Alguns salgueiros
ainda reforçam
a tristeza do cenário
que viu o jovem par
despedir-se
para sempre

Martim e Glenda
belos como as flores
que haviam
então, naquela época
circundando
o plácido lago
agora negro
aí se encontravam
e trocavam confidências
e juras de amor eterno

Que abraços
que risos
e que doces lágrimas
o lago viu correr
em suas margens!

Até o dia
ó dia amargo!
em que homens empunhando
tochas
vasculharam as águas
noturnas
em botes
e chalupas
gritando
gritando os nomes
do infeliz casal

Glenda foi achada
flutuando
pois seu vestido
branco refletia a luz
da lua
enquanto o jovem
Martim
nunca foi encontrado

Uma capela
não longe dali
construída para
abrigar o corpo
da infeliz donzela
arruinou-se devagar
devido à insidiosa
suspeita
de um duplo suicidio

Agora nada mais resta
senão as urzes
e as ervas daninhas
que cobriram as ruínas
hoje consideradas
malditas

Todavia
o lago guarda o nome
da donzela
e o martim-pescador
evoca o jovem
enamorado
mergulhando sempre
nas negras águas
procurando
procurando...

FIM

31/12/2003


Bodas camponesas

24
Um sino estridente
alegrou a aldeia
naquela manhã festiva
Ruídos, relinchos
e a alegre correria
denunciavam
os preparativos
da boda
Grandes mesas
bancos
enfileirados
em plena rua
e os primeiros
acordes
das melodias
escolhidas
como afinação
ou ensaio
das trompas
flautins
e rabecas

Ouviu-se
ao longe o coro
dos amigos
do noivo
que o escoltavam
numa marcha
farsesca
um tanto cômica
mas também
propiciatória
pois imitava uma entrada
de guerreiros
embora os coletes floridos
nada lembrassem
as couraças

Enquanto
no quarto de cima
da estalagem
a filha do estalajadeiro
era vestida
e enfeitada com
fitas e guirlandas
de miúdas flores
As botas vermelhas da noiva
contrastariam lindamente
com as botas
negras do noivo

Carregada para baixo
nos braços das amigas
a noiva irradiava
a sua felicidade
como corada maçã
prestes a ser mordida

Uma rabeca
iniciou as danças
enquanto o forno
assava os pastelões
e o vinho já corria
nos canecos

Houve uma pausa
súbita para
a entrada do pároco
que numa rápida
prédica
e mais veloz ainda
benção
consagrou o casal

Então a rabeca
impaciente
saudou-os
e a euforia
retomou os presentes
num crescendo
em danças giratórias
até o amanhecer
quando próxima
da orgia
esmoreceu com
a partida do casal
na carroça enfeitada
de arcos floridos

Na janela superior
da estalagem
um lençol manchado
de sangue
era saudado alegremente
pelas mulheres casadas
pelas gargalhadas
maliciosas
dos amigos do noivo
e pelo rubor
das donzelas
enquanto a carroça prosseguia
com a parelha de cavalos
em trote acelerado
sumindo
na curva da estrada

E eu que assisti
as alegres bodas
camponesas
parti dali
numa suave nostalgia
de um tempo
e de um lugar
em mim
desconhecidos.

Eu poderia aqui, dar por terminado o meu relato
das bodas camponesas.
Entretanto eis o desfecho trágico desta festa verdadeira
que acabou por tornar-se lenda:


Assim que virou
a curva da estrada
e afastada suficiente
da vista da aldeia
o noivo
levantou os punhos crispados
em que
um deles apresentava
um trapo ensangüentado
enquanto a noiva
cobria com as mãos
em soluços
o rosto envergonhado
Então
chicoteando a parelha
precipitou
a carroça para um
abismo mais adiante
em desabalada
carreira

Os cavalos estacaram
revoltados
à beira do despenhadeiro
empinando-se
em relinchos aterrorizados
por mais que o
jovem desvairado
os chicoteasse

Então a carroça adernou
e os despejou
abraçados
no abismo.

O povo conta
que a estalagem
se tornou maldita
como aquela curva
perigosa
à beira do desfiladeiro
que tomou os nomes
( que não citarei aqui)
da noiva infiel
e seu desgraçado noivo.

Absolvidos por fim
de suas culpas
reais ou fictícias
que descansem em paz
os noivos da estalagem e do abismo...

E que prossigam na eternidade
as alegres bodas camponesas
!

FIM

1/01/2004


Fiorella

25
Gemem os ramos
desolados
dos salgueiros
ao vento
que corre sobre o lago
e alcança
os prados mal floridos
ou charneca áspera
que testemunhou
o que agora narrarei

Aqui neste cenário
cinzento
outrora fulvo
brincava
a doce Fiorella
filha do grangeiro
Giordano
homem reto e laborioso.

Ó cachos loiros
ó lábios de botão
faces mais brancas
que os jasmins
e os lírios do lago
Assim recordo
a doce Fiorellina
(que nada impede
maior diminutivo
de ternura...)
Perdera a mãe
e o irmão
mas não uma
alegria natural
que persistia
em arrastá-la muito longe
ó destino
fora do alcance
dos olhos paternos
para colher flores
ou atirar pedrinhas
na superfície
plácida do lago

Ó perfídia
enganosa placidez
de onde chegou
um bote, um dia
Sinistro bote
que ninguém viu
e que levou a doce Fiorella
deixando como único
testemunho
o vinco
na margem alcatifada
de uma proa
forasteira
e também o saquinho
de pedras
que se descobriu
serem as pérolas restantes
do único colar
de sua mãe

Assim contava ela
os dias
de sua orfandade
uma pérola por dia
atirada ao lago
na tentativa
de chamar
a branca dama
submersa
de sua memória
infantil

Em vão vasculhou-se
toda a região
e o perímetro
inteiro do lago
que até hoje
teima em
nada revelar
exceto aquele vinco
que também
se apagou
como única prova
do rapto imponderável
que nos recusamos
imaginar
para podermos
continuar
louvando
o bom Deus
destas campinas
e dos tristes
salgueiros
do negro lago.

FIM

01/01/2004

Moira (a Morte)- desenho de Guilherme de Faria para a lenda O Dilema do Príncipe, das Lendas da Alma, de Alma Welt

O dilema do príncipe>
26
Em tempos antigos
havia uma rainha
( Mérope era o seu nome,
como aquela
reconhecedora
mais antiga )
que não podendo
conceber um filho
fez engravidar
uma ama
prometendo fazer
da criança que nasceria
o herdeiro do seu rei

O ventre dessa mulher
cresceu
ao mesmo tempo
que o falso ventre
da rainha
e chegando o momento
do parto
que coincidiu com
o de sua ama
esta infelizmente
perdeu sua criança
enquanto a rainha
foi abençoada
com um lindo herdeiro

A verdade é que
essa farsa
( justificável )
acontecia
com grande freqüência
naqueles tempos
e desconfiamos
que isso preservou
a estirpe
de muitos reis
da degenerescência
e da monstruosidade
ou somente
de uma maior ainda
incidência
dessas coisas

Mérope estava feliz
finalmente
e a criança
crescia forte e
saudável
sob o olhar vigilante
da ama
talvez um pouco triste

O principezinho
tinha notáveis qualidades
esportivas
e guerreiras
embora pouco aplicado
na leitura
no estudo das línguas
e da religião

Tinha pulsos
e tornozelos grossos
e era um menino taludo
Tinha bom gênio
e não se excedia
na pancadaria
aos outros garotos
da corte
ou aos pequenos
serviçais

Chegando à adolescência
há muito o orgulho
de seu pai o rei
o menino ouviu
( por travessura )
a confissão de sua ama
a um velho monge
descobrindo assim
o segredo
de sua origem

Sendo um jovem de
absoluta honestidade
apesar daquela
pequena indiscrição
debateu-se interiormente
entre a renúncia
ao seu futuro reinado
e a preservação
da honra e ofício
de sua verdadeira mãe
a ama
que o criara

O jovem emagrecia
a olhos vistos
e perdendo a cor
tornou-se pálido
e de olhar febril
mais próximo
portanto
do aspecto
da verdadeira estirpe
do rei

Incapaz de decidir-se
entre a Verdade
que negava
a própria essência
da realeza
isto é
“o direito divino”
e a Fidelidade
às suas duas boas mães
resolveu partir
para Santiago de Compostela
naquela peregrinação
andarilha
pela Via Láctea
afim de adquirir
sabedoria
talvez pela benção divina
para decidir
o seu destino

Após longa caminhada
que fez questão
de fazer sozinho
tendo muito antes
se despedido comovidamente
do velho rei
de suas duas boas mães
e do jovem pagem
com quem crescera
e brincara
desde a tenra infância
o jovem príncipe
(chamemo-lo Miguel )
encontrou na estrada
um andarilho experiente
que já fizera
o caminho de Santiago
e outros
por esse mundo afora
inclusive a peregrinação
ao Santo Sepulcro
em Jerusalém
na Terra Santa
ainda nas mãos dos
servos de Maomé

Esse peregrino
crestado pelo sol
de dois mundos
após breve conversa
com o jovem príncipe
disse-lhe
(sem pararem de caminhar):

“Príncipe, estou vendo
que sois um jovem honesto
e bem intencionado
por isso vos direi
com poucas palavras
a única sabedoria

que aprendi
em todos esses anos
de peregrinações:

“Não cabe a vós
a decisão do vosso destino
e esse equívoco
de vossa consciência
é a única razão
do vosso sofrimento”

“Esqueceis que
a essência mesmo
do Destino
é a sua fatalidade
ou a nossa
absoluta impossibilidade
de nele influirmos
Foi isso que aprendi
com os sábios do Islã
e só por isso
já teria valido
a minha penosa travessia
do Sinai ”

“ Podeis fazer o que quiserdes
Chegar a Compostela
e serdes portanto abençoado
ou retornardes daqui
ao vosso reino
que dará no mesmo”

“Se tiverdes que sentar
naquele trono
ele já está sendo
espanado para vós.”

O jovem príncipe
aliviado com estas palavras
recuperou as cores
pelo sol da Espanha
completando a Via Láctea
até Compostela
onde feliz
recebeu a comunhão
sob o olhar
de Santiago, o Grande
e pôde voltar
para cumprir o seu destino
que infelizmente
não sabemos
se foi propício
ou não
pois a história do
seu primeiro e maior
dilema
acaba aqui.

Louvado seja Deus
que criou inúmeros
enígmas
sendo o Destino
o maior deles!

FIM

03/01/2004