
O Gramático- desenho de Guilherme de Faria, aqurela e nanquin, sobre papel Shöeller montado, de 100X74cm, coleção particular, São Paulo
O Gramático
13
Panfílio
mestre da gramática
passou a vida
a equacionar
orações
codificando-as
e decodificando-as
como um jogo de armar
apontando erros
com uma fúria
sagrada
muito admirada
pelos leigos
Quando morreu
procuraram seus escritos
possíveis ensaios
talvez versos
contos
um romance
Nada
Panfílio morrera estéril
e não deixara
descendência
Uma quadra sequer
que fosse sua
e de concordância perfeita
como se esperava
Seus esquemas
sobre textos alheios
diagramados
em vermelho
produziam estranha
aversão
e foram para o fogo
A única página
que sobrou
acidentalmente
um século mais tarde
caiu nas mãos
de um poeta erudito
que
espantado
decifrou-lhe o código
que produzia
o mais perfeito
poema
que o mundo já vira
Enciumado
o poeta suplantou
o erudito
e publicou o poema
como seu
queimando
o estranho
criptograma
original
Assim
não pudemos identificá-lo
e tudo se perdeu
de um jeito
ou de outro
Louvadas sejam mais uma vez
as Musas
pois que nada somos
sem o seu sopro
inspirador!...
FIM
27/12/2003
O Frade
14
Frei Lucca
monge franciscano
numa aldeia calabresa
adquiriu em pouco tempo
odores
de santidade
graças a uma
estranha bondade
perfeitamente isenta
que ele impedia
de acompanhar
com qualquer ação
ou mesmo
simples gesto
Nunca se lhe viu
repartir um pão
ou levantar um caído
mas ele estava
sempre por perto
com o mais doce sorriso
que um rosto pode
estampar
E assim
de algum modo
as pessoas se sentiam
contempladas
e ele era
venerado
Um dia
um leproso
com a sineta
chegou
à aldeia
que encontrou deserta
e com as janelas
fechadas
Frei Lucca
veio recebê-lo
à porta do mosteiro
e sorriu-lhe
naturalmente
sem o tocar
Dizem os aldeões
( que nada viram)
que o doente
caiu aos pés do frade
em prantos
risos
e aleluias
entrando em seguida
já curado
para ser também
um monge como Lucca
Agora passados
muitos anos
comenta-se na aldeia
que isso explica tudo
pois que Lucca
certamente fora também
um leproso agraciado
com um sorriso perfeito
de outro monge
e curado
continuara evitando
tocar seu semelhante
ou mesmo
repartir o pão
Pelo sim
pelo não
repartamos o pão
sorrindo!...
FIM
27/12/2003
O Mago
15
Um mago outrora
dedicou a sua vida
à procura
da forma mística
perfeita
que pudesse ser
encontrada pronta
na natureza
Somente o círculo
era visível com facilidade
no maravilhoso poente
enquanto o quadrado
só encontrara
na base das pirâmides
de cristal
do sal nas manjedouras
O retângulo
e o triângulo
encontrou também
nos cristais
Mas o propósito
de sua busca
foi malbaratado
pelo povo
que temia
um suposto poder
desestabilizante
da ordem
injusta
a que estavam
acostumados
Invadiram pois
o laboratório do mago
queimando seus diagramas
suas mandalas
e os modelos
geométricos perfeitos
e expulsaram
o velho sábio
sem um compêndio sequer
que nada lhe sobrou
O velho, entretanto
caminhando
para as portas
da cidade
sorria
olhando suas próprias mãos.
FIM
27/12/2003
A donzela campônia
16
Numa choupana
de colmo
próxima a um bosque
de pinheiros, faias
bétulas
e carvalhos
que filtravam suavemente
a luz
pondo o solo coberto de cogumelos
e líquens prateados
morava uma família
camponesa
Na verdade
uma viúva
e seu casal de filhos
O rapaz
aos quinze
partiu
como se devia
à aventura
no mar, longe dali
certamente como
grumete
Mas a jovem
de quatorze primaveras
poupada dos trabalhos
por ser bela demais
era a jóia
da viúva
e o encanto
das redondezas
Tinha tudo
naturalmente
para ser cobiçada
por um mago
ou bruxo
invejada por
princesas e rainhas
e encantada
por má fada
Mas o que se sabe
é que Laurinda
(esse o nome da donzela)
penetrou no bosque
um dia
como fazia sempre
para colher fungos
silvestres
e voltou com
as lindas pernas
e os pezinhos
cobertos de sangue
Na sua inocência
acreditando-se
invadida por
um duende
malígno
resolveu desalojá-lo
e enforcou-se
no sótão
da choupana
Os camponeses da região
a princípio consternados
perpetuaram
a memória
de Laurinda, a donzela
violentada
pelo rei dos gnomos
e o bosque
interditado
fechou-se
na sua maldição
tornando-se
realmente
sinistro
Posteriores donzelas
que o penetraram
desavisadamente
nele foram violadas
e seu sangue
salpicou os cogumelos
vermelhos
que jamais
devemos colher.
FIM
28/12/2003
O Monge
17
Num mosteiro dos Alpes
havia
um jovem monge
tonsurado
que apesar da
pobreza e austeridade
do seu burel
e das sandálias
chamava a atenção
por sua beleza
física
e por seu porte
A caridade e
a comunhão
eram o forte
do mosteiro
mas os monges
eram chamados
para conselhos
além das preces, sermões
confissões, bençãos
e sacramentos
Estando uma jovem
definhando no leito
a família mandou
chamar um monge
qualquer
do mosteiro
de preferência velho e sábio
Desavisadamente
ó destino, ó ironia!
foi-lhe enviado dali
o jovem e belo monge
por seu zelo
e retidão
Depois de abençoar
a família
o monge aproximou-se
do leito
e contemplou
por um momento
comovidamente
o rosto pálido da jovem
moribunda
e diante da estupefação
dos presentes
curvou-se sobre
o seu rosto
e beijou-lhe
os belos lábios
descorados
Esta abriu os olhos
que logo se iluminaram
encontrando os do
jovem frade
e um sorriso beatífico
devolveu-lhe a cor
às faces lívidas
e aos lábios
O jovem frade
segurou a mão
que a jovem lhe estendia
e ajoelhado ao seu lado
a levou ao coração
Percebia-se estar
diante de um ato
de adoração
mútua
e os presentes
desconcertados
agitavam-se
numa mistura
de surpresa
e indignação
Estes dois já se amavam
de algum modo,
os belos jovens
O fato é que
a moça milagrosamente
reviveu
recuperou as cores
naquele momento
sublime
e constrangedor
O pai e os irmãos
da jovem
afastaram a braços
desse leito
de maneira
um tanto imperiosa
o monge
para que partisse
cumprida a sua missão
Diz-se até hoje
que o belo monge foi
transferido
do mosteiro
ou que a família
mudou de aldeia
Outros ainda
dizem
que a moça
em seguida ao beijo
suspirou e morreu
com um sorriso
nos lábios
encarnados
O que acho
mais provável
Louvado seja o amor
que,
se não ressuscita os mortos,
apazigua os moribundos!...
FIM
28/12/2003


Queen Mab- desenho de Guilherme de Faria para para a lenda Deirdre, das Lendas da Alma, de Alma Welt.
Queen Mab- Desenho de 100X74cm, de Guilherme de Faria, coleção particular, São paulo
Deirdre
18
Ó forças elementais!
Ó florestas, águas
e as belas chamas
que nascendo no céu
descem ao solo
para alegria das salamandras!
Neste cenário perfeito
de vales e montanhas
corria a jovem
predestinada
Deirdre, filha
da Irlanda
ancestral
Longos cabelos ruivos
emoldurando
o branco rosto
iluminado pelo azul
de seus olhos risonhos
e lábios
mais encarnados
que os cabelos
Certamente fadada
ao encontro das fadas
ocorreu esse encontro
nos seus treze anos
embora digam alguns
que já fora velada
por elas
em seu berço
e que os duendes
e gnomos
a iniciaram
nos mistérios
do jardim paterno
antes ainda
de aventurar-se
um pouco mais longe
naquele bosque
encantado
A doce filha
do país das fadas
caminhava
no bosque
uma manhã
quando viu
pela primeira vez
o cortejo real
de Queen Mab
com seu coche
que era
realmente
uma casca de noz
Tal como fora advertida
por sua velha ama
seu coração tornou-se
vulnerável
e pronto a apaixonar-se
pelo primeiro donzel
que avistasse
Ó destino, ó ironia!
esse foi
o jovem filho
do guarda-caça
certamente
mais plebeu
que seu cão
que não tinha
propriamente
linhagem
para justamente
guardar, guardar
Frolo, o jovem
puro como Deirdre
paralisado
pela proximidade
de sua patroinha
tornou-se também
um sonhador
Assim ambos sonhavam
cada qual
por seu lado
e isso foi evocado
mais tarde
após a fuga
que mobilizou
todos os varões
da região
e agitou as mulheres
O jovem par
fugitivo
não foi encontrado jamais
coisa imponderável
na charneca
devassada
Houve porém o testemunho
da menina camponesa
que jurou tê-los visto
caminharem no bosque
e desaparecerem
Os camponeses evitam
falar das fadas
que por certo temem
mas a pequena campônia
muitos anos depois
confidenciou
ao seu próprio noivo
camponês
no dia de suas alegres bodas
ter visto
Queen Mab
carregar o jovem par
na sua carruagem de noz
chicoteando
os minúsculos corcéis que
partiram voando
em disparada
Não podemos
pois
confiar nas fadas
que apoiam
indiscriminadamente
o amor
sem maior consideração
pelos costumes
dos homens.
FIM
30/12/2003
Fingal's Cave
19
Conta-se
que
o jovem Mendelssohn
viajando pela Escócia
e ouvindo falar
da gruta de Fingal
preferiu
o litoral das Hébridas
às Terras Altas
e para lá
dirigiu-se
sem demora
Pagou um barqueiro
que remando
conduziu o bote
até próximo
à entrada perigosa
da célebre gruta
batida pelas ondas
onde outrora
o bardo guerreiro
futuro pai
de Ossian
se escondeu
Conta-se que
o barqueiro
nada ouviu
mas Mendelssohn
pôde distinguir
nota por nota
de seu maravilhoso
poema sinfônico
que lhe veio
inteiro e pronto
executado
pelos ventos
e ondas
açoitando
as rochas
como os arcos
dos violinos
violoncelos
e o sopro
das madeiras
e metais
Nada faltou
e o jovem maestro
regeu a música
ali mesmo
de pé na proa
do bote
em perigoso equilíbrio
para espanto
e fascinação
do barqueiro
Após
esse maravilhoso
concerto
inaugural
tudo o mais
na ilustre carreira
dessa
obra-prima orquestral
foram récitas
jamais igualando
a estréia
verdadeira
Reverenciemos pois
a música
que existe
no ar
e no mar
a despeito
do nosso próprio
rumor
e silêncio!
FIM
30/12/2003
Gilmore (uma lenda do Graal)
20
Entre os muitos
cavaleiros
consagrados à procura
do Santo Graal
nos dois séculos
que se seguiram
à morte
de Arthur
conta-se
que sir Gilmore de Galloway
foi o mais dedicado
e o que
chegou mais perto
Percorrendo
a grande ilha
a partir
da ruína
do que outrora fora
Camelot
cuja Távola
ainda se avistava
meio enterrada
como uma nave
que lentamente aderna
e afunda
Gilmore
chegou a Cornwall
no auge de seu poder
mas pouco antes
da grande peste
que se seguiu
à batalha dos cem mil mortos
da qual não sabemos
se participou
Na verdade
seu encontro
com o Graal
ocorreu num mosteiro
onde chegou
ferido de morte
amarrado ao seu cavalo
pelo seu escudeiro
cujo nome
a lenda não registra
Consta que
o superior
do monastério
presidiu um conselho
de todos os monges
para decidirem
se usariam a taça sagrada
de seu
mosteiro
para dar de beber
ao ferido
Após acalorado
debate
incomum
à concordância
obediente
habitual àqueles monges
o superior
solenemente
retirou a taça
do sacrário
secreto
do qual ninguém
falava
apesar dos boatos
eventuais
que acabaram
se tornando
nesta lenda
Diz-se que Gilmore
tendo bebido da
taça sagrada
salvou-se do ferimento
mortal
que cicatrizou prontamente
e levantando-se
do leito
ajoelhou-se
pedindo
para olhar
uma última vez
para o Graal
O monge superior
então
sorrindo
entregou-lhe
a Taça e
disse-lhe que
a levasse consigo
pois a sua
natureza e
função
tinham sido cumpridas
e portanto
agora era
um receptáculo
como qualquer outro
Surpreso e consternado
ao mesmo tempo
Gilmore montou
no seu cavalo
com a taça
em seu alforje
e prestes a atravessar
o grande portão
do pátio
para retornar ao mundo
ouviu a voz
do monge
às suas costas:
“ Se quizeres, cavaleiro
reencontrar o Graal
dê de beber
a um moribundo
nessa taça
quando o encontrares
mesmo que esse
não seja fervoroso
como tu
e cheio de medo
blasfeme
na hora de sua morte”
“Reencontrarás
eu te asseguro
o Graal
que tanto procuras.”
FIM
30/12/2003
O Livro
21
No século das luzes
corria a lenda
de que o livro
matriz
de todos os livros
tinha sido descoberto
e
pasmem
não era a Bíblia
mas
um compêndio
obscuro
e avolumado
escrito
em estranhos
criptogramas
cor de sangue velho
Era voz corrente
nos círculos
próximos
à biblioteca
do mosteiro
que o abrigava
que a combinação
aleatória (como quem
embaralha cartas)
dos sinais
produzia
estórias sem fim
e ainda desvendando
e seguindo uma
certa chave criptográfica
desenhada no frontispício
da obra
teríamos a História
verdadeira
da humanidade
que
na verdade
não poderíamos ler
impunemente
pois sua revelação
de tão surpreendente
era mortal
O monge erudito
que o descobriu
ocupara-se do livro
por dezessete
longos anos
antes de descobrir
essa chave
então realmente adoeceu
de maneira fatal
e moribundo
cercado dos irmãos
do monastério
pode ainda
alertá-los:
“Misturem, eu vos peço
o livro aos outros
na nossa biblioteca
como uma carta
comum
no baralho
para que ele
perdendo-se
sobreviva
pois o século
que virá
fará mal uso dele
se descoberto
mas não o futuro longínquo
“O próprio livro
em sua História
mo revelou
em seu capítulo
mais sinistro”
“Levarei o segredo comigo
para o túmulo
mas advirto-os
que o perigo
não se encontra
na revelação
da nossa verdadeira
história passada
embora espantosa
mas sim
na história futura
da humanidade
que nele está
e que
se lida
condensará a sua
tragédia
num único dia
de Holocausto
total
pois ali se encontra
a fórmula
de nossa destruição
e de toda a
nossa galáxia
“ Não pedirei
que queimem o livro
pois sei que
se o fizer
ele desaparecerá
da biblioteca
e não teremos
a certeza de sua
destruição
“ Se
ao contrário
suas folhas forem
dispersadas
entre os cem mil
volumes
sei que só será
descoberto e recompilado
no futuro
por um homem
igual a mim
e teremos segurança
pois tal aplicação
e persistência
implica
em intenções
superiores.”
E tendo assim falado
o moribundo calou-se
e pode refluir para
o sono a que
tinha direito
antes de mergulhar
naquele outro
mais profundo
do qual
ninguém jamais
voltou
exceto Lázaro
e talvez
Er, o Armênio.
FIM
31/12/2003
Walhalla (ou A catequese de Benedictus)
22
Na ilha de Teifland
que permanece desconhecida
no mar Báltico
uma nau
aportou
trazendo um monge missionário
para catequizar
os últimos vikings germânicos
que isolados
ali viviam
adorando Thor, Odin
e as Valquírias
Disseram os marinheiros
que o monge
fora escolhido
pela sua bravura
e desassombro
pois os vikings
costumavam testar
a coragem dos forasteiros
num estranho jogo
de machados
no qual
preliminarmente
sacrificavam um dos seus
para infundir
pavor aos estrangeiros
Benedictus
o monge
não se impressionou
com a exibição de carnificina
e mostrou-se tão hábil
no jogo dos machados
de Odin
como se ali tivesse nascido
Os guerreiros loiros
então o reverenciaram
e mostraram-se
dispostos a ouvi-lo
Conta-se que
o hábil Benedictus
narrou a história de Cristo
o mais bravo filho de Odin
que não temeu a morte
nas mãos dos inimigos
e crucificado
invocou os raios e trovões de Thor
e a cavalgada
das Valquírias
que aterrorizaram os
romanos e fariseus.
Por fim, ao retirar-se
para o navio
deixara plantado
um novo deus
que segundo ele
daria frutos
e suplantaria
naturalmente
os outros deuses
do Walhalla
Os marinheiros
confusos e incrédulos
abanavam timidamente
as cabeças
Quem ousaria
contestar
a catequese
do Mestre ?
FIM
31/12/2003
Glendal
23
À beira do lago Glendal
crescem os choupos
e lariços
que retorcidos
dão um aspecto
lúgubre
ao lugar
Alguns salgueiros
ainda reforçam
a tristeza do cenário
que viu o jovem par
despedir-se
para sempre
Martim e Glenda
belos como as flores
que haviam
então, naquela época
circundando
o plácido lago
agora negro
aí se encontravam
e trocavam confidências
e juras de amor eterno
Que abraços
que risos
e que doces lágrimas
o lago viu correr
em suas margens!
Até o dia
ó dia amargo!
em que homens empunhando
tochas
vasculharam as águas
noturnas
em botes
e chalupas
gritando
gritando os nomes
do infeliz casal
Glenda foi achada
flutuando
pois seu vestido
branco refletia a luz
da lua
enquanto o jovem
Martim
nunca foi encontrado
Uma capela
não longe dali
construída para
abrigar o corpo
da infeliz donzela
arruinou-se devagar
devido à insidiosa
suspeita
de um duplo suicidio
Agora nada mais resta
senão as urzes
e as ervas daninhas
que cobriram as ruínas
hoje consideradas
malditas
Todavia
o lago guarda o nome
da donzela
e o martim-pescador
evoca o jovem
enamorado
mergulhando sempre
nas negras águas
procurando
procurando...
FIM
31/12/2003
Bodas camponesas
24
Um sino estridente
alegrou a aldeia
naquela manhã festiva
Ruídos, relinchos
e a alegre correria
denunciavam
os preparativos
da boda
Grandes mesas
bancos
enfileirados
em plena rua
e os primeiros
acordes
das melodias
escolhidas
como afinação
ou ensaio
das trompas
flautins
e rabecas
Ouviu-se
ao longe o coro
dos amigos
do noivo
que o escoltavam
numa marcha
farsesca
um tanto cômica
mas também
propiciatória
pois imitava uma entrada
de guerreiros
embora os coletes floridos
nada lembrassem
as couraças
Enquanto
no quarto de cima
da estalagem
a filha do estalajadeiro
era vestida
e enfeitada com
fitas e guirlandas
de miúdas flores
As botas vermelhas da noiva
contrastariam lindamente
com as botas
negras do noivo
Carregada para baixo
nos braços das amigas
a noiva irradiava
a sua felicidade
como corada maçã
prestes a ser mordida
Uma rabeca
iniciou as danças
enquanto o forno
assava os pastelões
e o vinho já corria
nos canecos
Houve uma pausa
súbita para
a entrada do pároco
que numa rápida
prédica
e mais veloz ainda
benção
consagrou o casal
Então a rabeca
impaciente
saudou-os
e a euforia
retomou os presentes
num crescendo
em danças giratórias
até o amanhecer
quando próxima
da orgia
esmoreceu com
a partida do casal
na carroça enfeitada
de arcos floridos
Na janela superior
da estalagem
um lençol manchado
de sangue
era saudado alegremente
pelas mulheres casadas
pelas gargalhadas
maliciosas
dos amigos do noivo
e pelo rubor
das donzelas
enquanto a carroça prosseguia
com a parelha de cavalos
em trote acelerado
sumindo
na curva da estrada
E eu que assisti
as alegres bodas
camponesas
parti dali
numa suave nostalgia
de um tempo
e de um lugar
em mim
desconhecidos.
Eu poderia aqui, dar por terminado o meu relato
das bodas camponesas.
Entretanto eis o desfecho trágico desta festa verdadeira
que acabou por tornar-se lenda:
Assim que virou
a curva da estrada
e afastada suficiente
da vista da aldeia
o noivo
levantou os punhos crispados
em que
um deles apresentava
um trapo ensangüentado
enquanto a noiva
cobria com as mãos
em soluços
o rosto envergonhado
Então
chicoteando a parelha
precipitou
a carroça para um
abismo mais adiante
em desabalada
carreira
Os cavalos estacaram
revoltados
à beira do despenhadeiro
empinando-se
em relinchos aterrorizados
por mais que o
jovem desvairado
os chicoteasse
Então a carroça adernou
e os despejou
abraçados
no abismo.
O povo conta
que a estalagem
se tornou maldita
como aquela curva
perigosa
à beira do desfiladeiro
que tomou os nomes
( que não citarei aqui)
da noiva infiel
e seu desgraçado noivo.
Absolvidos por fim
de suas culpas
reais ou fictícias
que descansem em paz
os noivos da estalagem e do abismo...
E que prossigam na eternidade
as alegres bodas camponesas!
FIM
1/01/2004
Fiorella
25
Gemem os ramos
desolados
dos salgueiros
ao vento
que corre sobre o lago
e alcança
os prados mal floridos
ou charneca áspera
que testemunhou
o que agora narrarei
Aqui neste cenário
cinzento
outrora fulvo
brincava
a doce Fiorella
filha do grangeiro
Giordano
homem reto e laborioso.
Ó cachos loiros
ó lábios de botão
faces mais brancas
que os jasmins
e os lírios do lago
Assim recordo
a doce Fiorellina
(que nada impede
maior diminutivo
de ternura...)
Perdera a mãe
e o irmão
mas não uma
alegria natural
que persistia
em arrastá-la muito longe
ó destino
fora do alcance
dos olhos paternos
para colher flores
ou atirar pedrinhas
na superfície
plácida do lago
Ó perfídia
enganosa placidez
de onde chegou
um bote, um dia
Sinistro bote
que ninguém viu
e que levou a doce Fiorella
deixando como único
testemunho
o vinco
na margem alcatifada
de uma proa
forasteira
e também o saquinho
de pedras
que se descobriu
serem as pérolas restantes
do único colar
de sua mãe
Assim contava ela
os dias
de sua orfandade
uma pérola por dia
atirada ao lago
na tentativa
de chamar
a branca dama
submersa
de sua memória
infantil
Em vão vasculhou-se
toda a região
e o perímetro
inteiro do lago
que até hoje
teima em
nada revelar
exceto aquele vinco
que também
se apagou
como única prova
do rapto imponderável
que nos recusamos
imaginar
para podermos
continuar
louvando
o bom Deus
destas campinas
e dos tristes
salgueiros
do negro lago.
FIM
01/01/2004

Moira (a Morte)- desenho de Guilherme de Faria para a lenda O Dilema do Príncipe, das Lendas da Alma, de Alma Welt
O dilema do príncipe>
26
Em tempos antigos
havia uma rainha
( Mérope era o seu nome,
como aquela
reconhecedora
mais antiga )
que não podendo
conceber um filho
fez engravidar
uma ama
prometendo fazer
da criança que nasceria
o herdeiro do seu rei
O ventre dessa mulher
cresceu
ao mesmo tempo
que o falso ventre
da rainha
e chegando o momento
do parto
que coincidiu com
o de sua ama
esta infelizmente
perdeu sua criança
enquanto a rainha
foi abençoada
com um lindo herdeiro
A verdade é que
essa farsa
( justificável )
acontecia
com grande freqüência
naqueles tempos
e desconfiamos
que isso preservou
a estirpe
de muitos reis
da degenerescência
e da monstruosidade
ou somente
de uma maior ainda
incidência
dessas coisas
Mérope estava feliz
finalmente
e a criança
crescia forte e
saudável
sob o olhar vigilante
da ama
talvez um pouco triste
O principezinho
tinha notáveis qualidades
esportivas
e guerreiras
embora pouco aplicado
na leitura
no estudo das línguas
e da religião
Tinha pulsos
e tornozelos grossos
e era um menino taludo
Tinha bom gênio
e não se excedia
na pancadaria
aos outros garotos
da corte
ou aos pequenos
serviçais
Chegando à adolescência
há muito o orgulho
de seu pai o rei
o menino ouviu
( por travessura )
a confissão de sua ama
a um velho monge
descobrindo assim
o segredo
de sua origem
Sendo um jovem de
absoluta honestidade
apesar daquela
pequena indiscrição
debateu-se interiormente
entre a renúncia
ao seu futuro reinado
e a preservação
da honra e ofício
de sua verdadeira mãe
a ama
que o criara
O jovem emagrecia
a olhos vistos
e perdendo a cor
tornou-se pálido
e de olhar febril
mais próximo
portanto
do aspecto
da verdadeira estirpe
do rei
Incapaz de decidir-se
entre a Verdade
que negava
a própria essência
da realeza
isto é
“o direito divino”
e a Fidelidade
às suas duas boas mães
resolveu partir
para Santiago de Compostela
naquela peregrinação
andarilha
pela Via Láctea
afim de adquirir
sabedoria
talvez pela benção divina
para decidir
o seu destino
Após longa caminhada
que fez questão
de fazer sozinho
tendo muito antes
se despedido comovidamente
do velho rei
de suas duas boas mães
e do jovem pagem
com quem crescera
e brincara
desde a tenra infância
o jovem príncipe
(chamemo-lo Miguel )
encontrou na estrada
um andarilho experiente
que já fizera
o caminho de Santiago
e outros
por esse mundo afora
inclusive a peregrinação
ao Santo Sepulcro
em Jerusalém
na Terra Santa
ainda nas mãos dos
servos de Maomé
Esse peregrino
crestado pelo sol
de dois mundos
após breve conversa
com o jovem príncipe
disse-lhe
(sem pararem de caminhar):
“Príncipe, estou vendo
que sois um jovem honesto
e bem intencionado
por isso vos direi
com poucas palavras
a única sabedoria
que aprendi
em todos esses anos
de peregrinações:
“Não cabe a vós
a decisão do vosso destino
e esse equívoco
de vossa consciência
é a única razão
do vosso sofrimento”
“Esqueceis que
a essência mesmo
do Destino
é a sua fatalidade
ou a nossa
absoluta impossibilidade
de nele influirmos
Foi isso que aprendi
com os sábios do Islã
e só por isso
já teria valido
a minha penosa travessia
do Sinai ”
“ Podeis fazer o que quiserdes
Chegar a Compostela
e serdes portanto abençoado
ou retornardes daqui
ao vosso reino
que dará no mesmo”
“Se tiverdes que sentar
naquele trono
ele já está sendo
espanado para vós.”
O jovem príncipe
aliviado com estas palavras
recuperou as cores
pelo sol da Espanha
completando a Via Láctea
até Compostela
onde feliz
recebeu a comunhão
sob o olhar
de Santiago, o Grande
e pôde voltar
para cumprir o seu destino
que infelizmente
não sabemos
se foi propício
ou não
pois a história do
seu primeiro e maior
dilema
acaba aqui.
Louvado seja Deus
que criou inúmeros
enígmas
sendo o Destino
o maior deles!
FIM
03/01/2004
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