
Capa de Lendas da Alma - desenho de Guilherme de Faria, de 74X74cm, a nanquin e aquarela, coleção da escritora e poetisa Elisa Nazarian, São Roque, SP
LENDAS DA ALMA (de Alma Welt)
Pequena lenda
1
Diz uma lenda
verdadeira
que inventei
que um rei não encontrava o seu destino
Ser rei era pouco para ele
já que era origem e não a meta.
Andou e andou
( os reis sempre andam muito
nos seus vastos salões )
Mas este percorreu
a parte menos feia do seu reino
pois afinal, não era
rei de ferro
e sofria muito com o desconforto
apesar da existencial inquietação...
Ora, direis,
onde queres chegar, ó Alma?
Eu vos direi:
paciência, o rei
apenas partiu
com sua grande comitiva
e tudo pode acontecer
até mesmo
inesperada guerra
por deslize de fronteira
ou mesmo amor
à primeira vista
da mulher do rei vizinho,
ou ainda
uma simples e fatal diarréia
como ocorreu
com o grande Byron
Lord dos poetas
A verdade, é que o monarca
em questão
envelheceu em sua procura
de uma vida
e nada encontrou
que se parecesse
com a idéia
que tinha de destino
Bem, direis vós,
está na hora
do estafermo morrer, pois não?
Ah! Quão inesperados
são os desígnios da fortuna...
na hora extrema
encontrou o amor de sua vida
à primeira e última vista
numa certa carpideira
contratada
que chegou um pouco cedo
e não como esperáveis
atrasada.
Pronto, podeis ir embora:
o rei deu um suspiro, sorriu
e morreu
sem mais delongas.
Acaso achareis melhor desfecho
ouvintes, leitores,
que uma boa morte,
associada ao humano destino?
FIM
Postado por Lucia Welt às 15:58 0 comentários Links para esta postagem
Outra lenda da Alma
2
Num reino de além-mar
todo em volta de um penhasco
encimado pelo castelo
sombrio
vivia um outro rei
mais triste que o primeiro.
A esposa lhe morrera
de parto
e levara consigo o único herdeiro
nonato
nem sequer batizado
Imenso luto pesava sobre o reino
não permitindo a felicidade
nem mesmo
ao mais ínfimo
vassalo
O rei chorou a sua última lágrima
e encontrou-se cercado
do grande ressentimento
de um reino infeliz.
Cabeças rolariam
de um jeito ou de outro
não fosse a intervenção
providencial
do mago
que deixou o seu laboratório
nos porões
com uma fórmula
milagrosa:
a poção mágica
do Humor,
que tinha somente
a contra-indicação
do senso de igualdade
( incômodo para o rei )
que abalaria seu imenso poder
Que pensais, leitores
que escolheu
esse trágico monarca?
Infelizmente perdeu-se
o final dessa lenda
e não saberemos ao certo,
podendo somente presumir
já que
conforme entendo
a lição do velho Lear
o poder se ganha
ou se conquista pela força
e por ela se perde
mas ai do reino
e do rei
que renunciou
ao seu poder...
FIM
Ainda uma lenda
3
Um sábio de outrora
vivia
em reclusão
como cabe a todo sábio
que se preze
evitando acotovelamentos
com a Massa.
Sua sabedoria portanto
não servia para ninguém
senão para ele mesmo
imerso em estudos
e contemplação
que acabava sempre
no seu próprio umbigo
Mas eis que
numa tarde de outono
passeando pelo dourado bosque
que circundava o
castelo do seu rei
viu por uma única vez
a bela camponesa
que abalou sua solidão
para sempre
Sabemos disso tudo
por seu diário poético
cheio de belos
e dolorosos
versos de amor
vazados de sua sabedoria
que chegou até nós.
FIM
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