
O Fautista- desenho de Guilherme de Faria , de 74X74cm, Nanquin e aquarela s/ papel Shöeller.
Brindhall
6
No reino de Brindhall
a alegria
até então natural
foi subitamente banida
por um usurpador
O riso estampado
no rosto
de seus habitantes
a custo
esvaneceu-se
ou desarmou-se
Pode ter sido
coincidência
mas uma sombra
real
pairou sobre o reino
outrora radioso
e o teto do céu
tornou-se
baixo e
acinzentado
Assim passou-se
uma geração
melancólica
se não
francamente
infeliz
Mas
como prevíeis
ali chegou afinal
um jovem flautista
nem sequer parente
daquele
de Hammelin
e pôs-se
a trinar
logo de saída
uma ária alegre
Assim ele a repetiu
por três vezes
inteira
e logo partiu
sem nem um sinal
de decepção
embora com a bolsa
vazia
Foram necessários
três meses
para a melodia
alegre
insidiosa
começar
a dar fruto
Brindhall
hoje
recebe em sua feira
famosa na região
todos os anos
os flautistas
de todos os reinos
alguns de além-mar
para um célebre torneio
de uma mesma melodia
que pode ser interpretada
mas jamais
distorcida
O jovem flautista
mesmo
nunca foi identificado
e aparentemente
não esteve
sequer incógnito
nos torneios de Brindhall
pois seu toque
não foi igualado
jamais
Brindemos pois
à Música
que planta sementes
de alegria.
FIM
Uma lenda toscana
7
Na bela Toscana
em tempos idos
um rude camponês
afastou-se das parreiras
e aventurou-se
a entrar no bosque
proibido
do grão-duque
Diz o povo que ali
algo aconteceu
que o transfigurou
tornando-o belo
e delicado
como os próprios
filhos
do grão-duque
Isso, infelizmente
o denunciou
e os guarda-caça
vieram logo
buscá-lo
e o levaram
para o castelo
O jovem não mais
voltou
ao convívio dos seus
e seu paradeiro
ignorado
pois não foram toleradas
perguntas
O povo da Toscana
garante
que assim foi construída
desde tempos imemoriais
a bela estirpe
dos duques
da Toscana
isto é
por intermédio
do toque
das fadas
FIM
Labirintos
8
A contessina
Almavera
costumava brincar
no pátio do castelo
num austero jardim
geométrico
cujo único mistério
era a sebe
em labirinto
A contessina
temia ali entrar
e não mais ser
achada
permanecendo perdida
para sempre
Então pediu
ao seu pai
que destruísse a sebe
e ali plantasse
um pequeno bosque
no que foi
atendida
pelo prestimoso conde
que não lhe negava
nenhum mimo
Almavera cresceu
junto com o bosque
de preciosos pinheiros e faias
para onde logo vieram
o tordo
o rouxinol
e a cotovia
A contessina
nos seus quinze anos
uma manhã
entrou no bosque
como fazia todos os dias
e nunca mais
foi vista
O mordomo
antigo camponês
estranhamente ilustrado
garante
que a sebe-labirinto
não podia
ser destruída
por nada neste mundo
como não o foi
completamente
nem mesmo
Cnossos
o palácio-labirinto
de Creta.
FIM
Trigal de sangue
9
A grã-duquesa Amália
nos seus dezessete
estava pronta para casar-se
embora um tanto
retardatária
Percebeu-se
que de alguma forma
ela adiava
ou rejeitava
até mesmo
amáveis pretendentes
Até que uma tarde
ó tarde aziaga!
chegou a notícia
da morte de seu irmão
em duelo ou escaramuça
(não ficou claro)
e o seu corpo vinha
pelo trigal
para ser velado
entre quatro montantes
com os punhos transformados
em tocheiros
e acesos
fincados nas grossas
tábuas do salão
claro sinal
de guerra iminente
A duquessina Amália
chorou e gritou
pelo seu irmão
e mais do isso
arrancou um montante
sem apagar a tocha
e o carregou
maior do que ela
num estranho esforço
admirável
até o trigal
que viu passar o corpo
de seu irmão
com a coma loura
confundida com as espigas
Ali fincou a imensa espada
acesa
e não tardou o trigal
inteiro incendiar-se
provocando em seguida
a fome que
precipitou a guerra
vingadora
A duquessina Amália
diz o povo
jamais saiu daquele trigal
em chamas loiras
e vermelhas
como os cabelos ensangüentados
do seu malfadado
irmão.
FIM
MacFinn
10
O jovem Lorenz
filho do barão
do mesmo nome
do ilustre
mas não ilustrado
clã dos MacFinn
agora extinto
desceu das terras altas
nos seus vinte anos
incompletos
para buscar um mestre
que o satisfizesse
já que a ignorância
pedira asilo
no castelo de seu pai
e nunca mais
fora desalojada
O jovem, sagaz
intuía
que o mestre ideal
viria
ao seu encontro
desde que ele
se deslocasse
da montanha
inacessível
da ignorância
e soberba
do seu clã
Logo na primeira aldeia
por qual passou,
sentado no grande banco
da estalagem
cuja mesa já se enchia
das grandes canecas
do novo destilado
que surgira
tudo se encaminhava
para grande orgia
etílica
quando entrou subitamente
um forasteiro
de grisalha barba
e olhar agudo
Sentou-se em frente
ao jovem barão
e o convidou
a permanecer abstêmio
como um desafio
sem no entanto
colocar sequer
um dobrão
sobre a mesa
O jovem Lorenz
imediatamente
reconheceu o seu Mestre
e levantando-se
partiu com ele
para não mais voltar
O jovem desapareceu
nunca mais foi visto
Todavia não precisamos
nos preocupar
Tudo leva a crer
que estava
em boas mãos.
FIM
27/12/2003
O poeta
11
O jovem poeta Luchino
andou muito tempo
em solidão
até encontrar
um castelo
para si desconhecido
e vagamente
ameaçador
em plena campagna emiliana
Outro menos audaz
não ousaria
sacudir a aldrava
do grande portão escuro
que não denunciava
qualquer espírito
hospitaleiro
Todavia o poeta
foi introduzido
e o portão fechou-se
atrás dele
deixando a nós, leitores
do lado de fora
e temerosos
por ele
Semanas se passaram
e o portão
abriu-se afinal
para deixar sair
um cortesão a cavalo,
extremamente enfeitado
e com fitas pendendo
do belo alaúde
que carregava
na anca do corcel
Permanecemos vigiando
o portão
mas não logramos
avistar
nunca mais
o nosso bom Luchino
O que nos deixa
preocupados.
FIM
27/12/2003
O Armeiro
12
Numa aldeia
da Bavária
vivia um mestre ferreiro
que passara a vida
forjando espadas
e couraças
As armas que fazia
tinham a sua marca
de beleza inconfundível
e ele se esmerava
ainda
em decorá-las com
belos desenhos gravados
à água-forte
Um dia veio até ele
um escudeiro zeloso
trazendo-lhe uma
espada de belíssimo porte
e excepcional têmpera
cujo fio
era um abismo perigoso
ao menor toque
Entretanto
o maravilhoso instrumento
não ostentava
nenhuma decoração
como se a mais leve gravação
fosse supérflua
diante do seu poder
mortífero
O mestre sopesou-a
empunhou-a
respeitosamente
olhando-a à contra-luz
no crepúsculo
que a banhava
de suave luz
prateada
Então devolveu-a
ao escudeiro
recusando-se
a decorá-la
com o menor
dos mais belos desenhos
pois
(disse ele)
a Morte fala
por si própria
e o seu desenho
não nos cabe
reconhecer
sob pena de
nele projetarmo-nos
atraindo a vingança
dos mortos.
FIM 27/12/2003
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