domingo, 28 de outubro de 2007


Cornwall(...armou-se da cabeça aos pés)- Desenho de gulherme de Faria de 100X74cm s/ papel Shöeller, coleção particular, São Paulo



Cornwall

4
um rei da Cornualha
outrora
armou-se
da cabeça aos pés
p’ra combater
um rival
que ameaçava o destino
do seu reino
por cobiçar a sua filha
tanto quanto a decantada
riqueza
de Cornwall.

Na imensa charneca
que separava os dois castelos
esses exércitos
se encontraram
num memorável dia de primavera
para tingir
as urzes
de vermelho.

A batalha foi tremenda
mas os reis
pessoalmente não se encontraram
propriamente
no combate
à frente
dos seus exércitos
pois, na verdade
estavam
longe dali

Na frente corria o casal
fujão
o rei vizinho e a princesa
filha de Cornwall
e atrás furioso
o rei roubado


Os três mais tarde
foram encontrados
atravessados pelas duas espadas.

Após a sangrenta
batalha de cem mil mortos
a Cornualha começou
a sua decadência.

FIM


A princesa poeta
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Num antigo reino
uma princesa
revelara bem cedo
uma notável
veia poética
coisa inconcebível
pois os nobres do seu tempo
acreditavam
que ser mulher e princesa
era poesia suficiente
e o fazer poético
coisa da estirpe
mais baixa
dos artistas
embora
alguns reis outrora
tivessem cometido
os seus versos
por diletantismo ou diversão
ou mesmo
levando a coisa a sério
como o enobarbo
Nerone


Seu pai, o rei, tentou
em vão
dissuadi-la
de compor versos
mas isso revelou-se
impossível
pois
secretamente
a princesa continuou
a escrever
maravilhosos poemas
a julgar
por alguns poucos
que chegaram até nós
estranhamente manchados
de sangue
que se presume
dela mesma.

Louvadas sejam as Musas
os poetas
afinal
sempre escreveram
de um jeito ou de outro
com seu próprio
sangue.
FIM

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